15:
A praia de Ponta Negra está localizada dentro da Reserva Ecológica da Juatinga (com 8000 Hectares) próximo à cidade de Paraty. Não é de hoje que conheceço esse pequeno vilarejo, com aproximadamente 35 famílias. Essa comunidade, de origem caiçara, está instalada na Ponta Negra já a alguns séculos. Os moradores da região sempre se mantiveram da pesca, sendo a agricultura/pecuária praticamente inexistentes.
Ponta Negra parece reproduzir numa escala micro os modelos de desenvolvimento da humanidade como um todo: Cada vez mais o lixo/poluição se torna um problema sem solução, os vícios (alcoolismo e drogas) se disceminam rapidamente entre os caiçaras, as rixas familiares, a formação de uma classe que concentra o poder político-econômico nas mãos, o crescimento populacional não planejado e o crescente empobrecimento das famílias são alguns dos sintomas desse processo.
|

|
De alguns anos para cá, a situação vem se agravando com a diminuição dos peixes disponíveis. Isso se deve, principalmente, a atividade ilegal de pesca com barcos de arrasto e parelha - em contraste à forma com que os caiçaras pescam, lançando os cercos ao mar, e/ou pescando com linha e anzol. A população segue crescendo e as dificuldades se tornam cada vez mais visíveis. A alternativa posta como sustentável é o turismo, mas fica evidente a disparidade que esta atividade implica, pois concentra-se nas mãos de alguns poucos que controlam a economia gerada pelos visitantes. Além disso, o impacto social do contato com o mundo urbano vem aumentando o nível de consumismo entre os moradores: todos querem celulares com câmeras fotográficas e bermudas da marca mais famosa.
Para agravar a situação, isso tudo se dá dentro de uma Reserva Ecológica, controlada pelo IBAMA e pelo IEF. Não existe um plano de manejo¹ determinado para o desenvolvimento da Reserva e as iniciativas de ONGs lá dentro são muito limitadas. As iniciativas que existem na Ponta Negra são atreladas aos interesses do Condomínio Laranjeiras que, por se tratar de um mega empreendimento imobiliário próximo à região, pode e deve ser questionado². A legislação vigente não reconhece o Caiçara como o dono da terra (que ele habita muito antes de qualquer legislação ambiental) e também não prevê o extrativismo (basicamente de madeira) que as atividades pesqueiras demandam.
Neste contexto brevemente apresentado acima, estive fotografando a vida cotidiana na comunidade e tentando de alguma forma registras as contradições ali presentes. Trata-se de uma comunidade muito fechada e foi difícil adentrar fotograficamente lá. Porém, a constante persistência me permitiu alguns resultados prévios de um futuro projeto à ser construído. Muitas idéias e algumas ações: alguém se interessa em participar?
¹ SILVEIRA, Gilda Nogueira da & BRANDÃO, Heloísa Bortolo. ASPECTOS DA GESTÃO DA RESERVA ECOLÓGICA DA JUATINGA SOB A LUZ DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL CONSIDERANDO A OCUPAÇÃO POR COMUNIDADES CAIÇARAS.
² Alguns exemplos das atitudes unilaterais de tal condomínio pode ser lido aqui.
Links de interesse: Raízes e Frutos // “Caiçara de Paraty” - vídeo // Associação Cairuçú //
VEJA O MAPA DA REGIÃO
23:
Faz alguns meses que descobrimos o site Model Mayhem, uma comunidade (bem no estilo Orkut ou Facebook) onde as pessoas estão interessadas em participar e colaborar em produções fotográficas ou cinematográficas. Pessoas do mundo inteiro, nas diversas áreas de importância (modelo, maquiador(a), fotógrafo(a), produtor(a), etc.) trocam idéias e experiências para realizar trabalhos (remunerados ou não) que envolvam essas atividade.
Começamos a utilizar essa ferramenta e, para nossa felicidade, já fizemos um ensaio que nos agradou muito. Entramos em contato com Laura Hamilton, uma inglesa que mora em Portugal. Maquiadora e cabelereira, ela arrebentou no estilo proposto e discutido entre nós. A modelo Pati Murtinho não veio através do site mas, no espírito colaborativo que criamos, se encaixou como uma luva na idéia e também mandou muito bem nas escolhas de figurino!
10:

- Foto: Vivi Zanata
Entre o fuzil e a câmera ficamos somente nós e a imagem que faz a mediação do evento
Foi publicada mais uma edição da Revista Studium . Fonte de ótimos trabalhos relacionados à imagem, esta edição (No. 28) trás um texto de Fernando de Tacca onde discute a imagem acima e toda as questões que sucitou o episódio, ocorrido em 2007. O texto Entre a arma e a câmera – reflexões sobre uma imagem-ato explica de modo exemplar como que a fotografia une (de forma irremediável) o ato, fonte de registro, e a imagem produzida. Transcrevo aqui um pedaço do que li lá:
|
“Em quem Serra mira? Uma pergunta que fica implícita. Nos fotógrafos, poderíamos entender como a primeira realidade, como diz Kossoy, mas quando a imagem sai do campo situacional e entra em circulação pelos meios de comunicação de massa, somos nós a quem o fuzil aponta, nós leitores e cidadãos! (…) Seria ele ingênuo para apontar uma arma direto para os fotógrafos, que também o miravam com suas câmeras? Arma contra arma, uma talvez estivesse descarregada, a outra tinha muitos projéteis imagéticos digitais. As lógicas da arma e da câmera são muito similares, uma gestualidade técnica contaminada pelo olhar oportuno em busca da caça dos dois lados do olhar.” (grifo meu)
|
25:
Realmente essa é uma discussão sem fim.
Quando o assunto é pós-produção da fotografia, Cada um fala uma coisa: uns sobre ética e moral, outros sobre estetica e re-escolha ou estrapola-se o argumento e pensa-se em um surrealismo fotográfico. Mas o que não podemos perder de foco é que desde a invenção da fotografia já era possível a manipulação das chapas.
A manipulação é visível em diferentes momentos da fotografia. Afinal, a opção por determinado enquadramento já é por si uma forma de “manipular” o que está sendo apresentado. Fora todas as outras nuances técnicas que, no momento do clic, definem um ponto de vista determinado, específico. Cada qual vê e registra com toda uma carga social e emocional, vividas e re-vividas até o momento do clic. Seriam esse fatores de “manipulação” a priori na imagem?
Já dizia Fox Talbot sobre seu trabalho:
The plates of the present work are impressed by the agency of Light alone, without any aid whatever from the artist’s pencil. They are the sun-pictures themselves, and not, as some persons have imagined, engravings in imitation.
Pois bem, além desses elementos a priori, as sociedades que se utilizam da fotografia para produzir uma auto-imagem começaram a desenvolver um argumento que extrapola a relação mimética da fotografia com a realidade. Começam a entrar, nesse momento, fatores técnicos que permitem uma reelaboração das fotos. Os Darkrooms foram, no século XX o que o Photoshop e outros softwares de edição se tornaram no século XXI.A diferença é que hoje em dia essas ferramentas vieram à tona para maior numero de pessoas e, com isso, o questionamento da “realidade” intrínsica nas fotos. Para o grande público, comecou a ficar fácil identificar o que é uma foto crua e uma bem editada.
|

Richard Avedon - evidence
Anotações na ampliação para o laboratorista guiar-se na ampliação.
Extraído de Olha e Vê
|
Chegamos a fácil conclusão de que as imagens são representações criadas por alguém e recebidas por outro alguém. Só que a fotografia passou por momentos onde o produtor da imagem não detia a pós-produção das imagens, pois existia a figura do laboratorista. Hoje em dia também podemos dividir os momentos da fotografia entre o da produção e da pós-produção, mas que muitas vezes se concentram na mão do fotógrafo que deve dominar tecnicamente as duas áreas.
circa 1860: This nearly iconic portrait of U.S. President Abraham Lincoln is a composite of Lincoln’s head and the Southern politician John Calhoun’s body. Putting the date of this image into context, note that the first permanent photographic image was created in 1826 and the Eastman Dry Plate Company (later to become Eastman Kodak) was created in 1881.
|
1936: In this doctored photograph, Mao Tse-tung (first from the right) had Po Ku (first from the left) removed from the original photograph, after Po Ku fell out of favor with Mao.
|
1942: In order to create a more heroic portrait of himself, Benito Mussolini had the horse handler removed from the original photograph. |
acima, coletânea organizada pelo pesquisador Hany Farid
E aonde nos encaixamos nessa zona toda??
A i | z acredita que é através do processo de pós-produção digital, nos softwares de tratamento, que a imagem adquire o sentido que “passa pela nossas cabeças pensantes na hora em que clicamos”. Antes do clic, já temos em mente como sera a edição daquela imagem. Sabemos até onde podemos ir sem “danificar” a imagem. A edição nada mais é do que impor sobre a imagem um ponto de vista a posteriori. É nessa perspectiva que trabalhamos e oferecemos o serviço de edição de imagem. Pretendemos ser os novos laboratorias: para que fotografos, designers ou qualquer outra pessoa que trabalhe com imagem possa obter da foto (imprefeita no momento do clic) o que esperava.
24:
Fotografias de JONATHAN TORGOVNIK // tema: Children born of rape - Ruanda // Local: apperture
…os textos que acompanham as images são relatos das mães…



29:
No mês de Dezembro ocorre, anualmente, a montagem da Arvore de Natal flutuante na Lagoa Rodrigo de Freitas (RJ). Considerado um dos maiores eventos da cidade, a estrutura metálica revestida por milhões de luzes atrai um público enorme, de todas as partes do estado e do país. O entorno da Lagoa se enche de vendedores ambulantes, flanelinhas, trabalhadores oficiais (da prefeitura, etc.) e outras pessoas que veem o evento como uma
oportunidade de ganhar dinheiro.
Essas pessoas estão longe de participar como “o símbolo do natal e da família brasileira!” e são vistos, com frequencia, como um transtorno para o bom andamento do espetáculo. Todos os olhares estão voltados para a árvore flutuante, que ostenta, por trás de tantas luzes, um grande patrocínio de uma empresa privada de seguros e apoio governamental.
Essa série fotográfica se propõe a subverter a imagem oficial do evento, retratando os que não aparecem nos anuncios oficiais e nem entram nas estatística de movimentação financeira que ocorre durante o período que a árvore está montada. Não apresento aqui mais um clichê das milhares de luzes piscantes que formam, entre outras coisas, o símbolo do patrocinador para que as pessoas não esqueçam de como a iniciativa privada promove o entretenimento da cidade. Minha idéia é olhar o outro lado, relegado às sombras da mídia e publicidade oficial. O ensaio ainda está em construção, mas levará mais alguns anos para ser finalizado.





